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Autor: Paulo Cesar Naoum |
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A mutação que deu origem à Hb S
Estudos antropológicos associados às
análises biomoleculares sugerem que o gene da globina bS,
ou gene da Hb S, surgiu por um processo de mutação
de bases nitrogenadas ocorrido entre 50 e 100 mil anos, abrangendo
os períodos Paleolítico e Mesolítico. Esses
mesmos estudos indicam a África como o local provável
da ocorrência da mutação na fase coincidente
à presença do Homo sapiens neanderthalis
(há 100 mil anos) e do Homo sapiens sapiens
(há 50 mil anos). A causa que motivou a troca de uma base
nitrogenada (adenina) por outra (timina), cuja tradução
molecular substituiu o aminoácido glutâmico pela valina
na posição número 6 da globina beta, ainda
permanece desconhecida. Se considerarmos as evidências científicas
obtidas após as descobertas dos fósseis do H.
sapiens neanderthalis e do H. sapiens sapiens
nas regiões norte, centro e sul da África, é
possível admitir que o processo da mutação
que deu origem à Hb S foi multi-regional. Essa hipótese
foi comprovada há pouco mais de dez anos através do
mapeamento do cromossomo 11, especificamente da região do
agrupamento de genes da globina tipo beta ( e,
gG, gA,
yb, d e b).
Por meio da análise de onze regiões polimórficas
do agrupamento de genes de globina tipo beta, determinadas pela
aplicação de enzimas capazes de quebrar ligações
entre bases nitrogenadas específicas (enzimas ou endonucleases
de restrição), conforme mostra a figura 6.9, foi possível
concluir que o segmento cromossômico entre os genes e,
g, d, e bS
pode conter diferentes seqüências de bases nitrogenadas
ou haplótipos que são específicas
para determinadas populações ou grupos étnicos.
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Figura 6.9 - Seqüência de polimorfismos do agrupamento
de genes da globina bS no cromossomo
11. Caracterização dos cinco haplótipos: Senegal,
Benin, Bantú, Saudita e Camarões. Identificação
das endonucleases de restrição: (1) Hinc II; (2) Xmn
I; (3) e (4) Hind III; (5) Pvu; (6) e (7) Hinc II; (8) Taq I; (9)
Hinf I; (10) Ava II; (11) Hpa I; (12) Hind III;
(13) Ban HI. |
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Embora o produto final seja a síntese de
Hb S, há pelo menos três grupos populacionais na África
com segmentos cromossômicos diferentes e caracterizados pela
disposição seqüencial específica de bases
nitrogenadas; esses três grupos distribuídos em regiões
geográficas distintas foram denominados por Senegal,
Benin, Bantú (figura 6.10).
Além desses três grupos, dois outros grupos étnicos
muito pequenos foram descritos por terem haplótipos diferentes
daqueles já descritos, sendo um caracterizado em pessoas
provenientes do sudeste de Camarões e o outro pertencente
a uma tribo conhecida por homens do mato (Eton "people"
ou Bushmen), caracterizando o haplótipo Camarões.
Entretanto, a teoria da origem multicêntrica do gene da Hb
S passou a ter considerável credibilidade quando identificaram
outro haplótipo diverso dos quatro anteriores (Senegal, Benin,
Bantú e Camarões) entre populações do
leste da Arábia Saudita e em grupos tribais da Índia.
Esse haplótipo de Hb S denominado por Árabe-Indiano
está difundido notadamente em populações do
leste da Arábia Saudita, Bahrain, Kuwait e Oman.
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Figura 6.10 – As prováveis três
áreas (1: Senegal; 2: Benin; 3: Bantú) cujas populações
foram afetadas pela mutação que deu origem à
Hb S. A quarta área identificada por Árabe-Indiano fundamenta
a suposição que a Hb S teve origem multicêntrica.
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Uma outra questão a respeito da origem
da Hb S se refere ao fato de que a mutação tenha ocorrido
apenas uma vez, ou mais de uma vez. Alguns pesquisadores envolvidos
neste assunto admitem que a mutação ocorreu apenas
uma vez em uma determinada época entre os períodos
Paleolítico e Mesolítico. Entretanto há três
restrições que contrapõem essa hipótese:
primeira: a mutação poderia ter ocorrido
mais de uma vez, porém desapareceu da população
por mecanismos semelhantes à deriva genética(a), ou
ao fluxo genético(b), bem como à pressão seletiva(c);
segunda: a mutação poderia ter aparecido
mais que uma vez, porém no mesmo haplótipo –
sendo, portanto, indetectável; terceira:
as regiões polimórficas do gene da globina beta ainda
não estão totalmente estabelecidas para afirmar categoricamente
que a mutação tenha ocorrido apenas uma vez.
a) Segundo o geneticista Brito
da Cunha (1966), "as mudanças evolutivas geridas pela
seleção natural são sempre adaptativas, o que
não acontece com as produzidas pela deriva genética.
Algumas vezes a deriva genética foi invocada para explicar
diferenças de freqüências gênicas entre
populações, quando não se via como os caracteres
em questão pudessem apresentar valores adaptativos. Isto
aconteceu também com as inversões. A demonstração
posterior de importância adaptativa desses caracteres e das
inversões tem sido um contínuo tema de debates.
b) Fluxo gênico ou fluxo
genético significa a entrada ou saída recorrente de
genes de uma população por processos migratórios.
c) Pressão seletiva se
deve a um agente orgânico ou inorgânico que impede ou
estimula determinado gene mutante.
Por outro lado, o grupo de pesquisadores que supõe
a múltipla ocorrência da mutação da Hb
S se apoiam no fato da presença dos cinco haplótipos
descritos até o presente, e assim propõe que a origem
da Hb S se deu em cinco ocasiões diferentes, e foram favorecidas
pelo efeito protetivo da Hb S em portadores heterozigotos frente
à infecção do Plasmodium falciparum.
Apesar do extraordinário desempenho das
técnicas de biologia molecular no estudo dos haplótipos
do gene da globina bS associados
aos aspectos antropológicos e evolutivos, a questão
da origem monocêntrica ou multicêntrica, bem como sobre
o efeito protetivo da Hb S contra a malária, ainda permanece
em discussão.
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A dispersão do gene da Hb S
A dispersão do gene
da Hb S pode ter ocorrido entre 50 mil e 100 mil anos quando os
nossos ancestrais se deslocaram para o sudeste da Ásia e
para a Austrália. Estudos antropológicos recentes
revelaram que há 50 mil anos os H. sapiens sapiens
se deslocaram para várias regiões da Ásia,
atingindo o Oriente Médio e a Sibéria (figura 6.11).
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Figura 6.11 – Mapa ilustrativo da movimentação
do homem entre 60 mil e 40 mil anos. Por volta de 60 mil anos a migração
se deu no sentido Ásia e Austrália (seta 3), e há
40 mil anos a movimentação ocorreu para diversas regiões
da Ásia (setas 1 e 2), com destaque ao Oriente Médio
e Sibéria (seta 4). |
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Entretanto, admite-se que a expansão da
Hb S se deu efetivamente no período Pré-Neolítico,
entre 10 mil e 2 mil anos a.C., marcada pela miscigenação
entre diferentes povos da região do Saara. Nesse período,
o Saara era composto por terras férteis e com agricultura
desenvolvida para o abastecimento de suas populações.
No período Neolítico (3.000 – 5.000 a.C.) ocorreu
a transmissão da infecção parasitária
causada pelo Plasmodium falciparum proveniente
da região que hoje corresponde à Etiópia. Destaca-se
durante esse período o aumento do processo migratório,
o assentamento de grupos populacionais e o estabelecimento de grandes
centros de civilizações no vale do rio Nilo, bem como
na Mesopotâmia, Índia e Sul da China. A malária
se expandiu entre esses quatro principais centros, e no caso específico
relacionado com a Hb S, a malária se estendeu do vale do
Nilo para a costa do mar Mediterrâneo. Acredita-se, assim,
que nesse período teve início a pressão seletiva
favorável aos portadores heterozigotos da Hb S (ou Hb AS)
frente ao desenvolvimento da doença causada pela malária.
Com a desertificação do Saara, ocorrida no período
Neolítico Posterior (2.000 a 500 anos a.C.), suas populações
migraram para outras regiões da África, atingindo,
inclusive, as regiões banhadas pelo mar Mediterrâneo.
É importante destacar a explicação sobre a
expansão da Hb S no período Pré-Neolítico
que foi dada pelo Professor Stuart J. Edelstein em seu livro "The
Sickled Cell". O professor Edelstein calcula que se a prevalência
de indivíduos com Hb AS dobra a cada sete gerações,
seriam, assim, 17 duplicações necessárias para
se aproximar da atual prevalência de Hb AS na África
envolvendo 119 gerações (ou seja 7 x 17 = 119). Se
for estimado 20 anos para cada geração, resulta que
a dispersão da Hb S ocorreu efetivamente há cerca
de 2400 anos, a partir do momento em que a população
se estabilizou alavancada principalmente pelo desenvolvimento agrícola,
organização social, além do discutível
fator seletivo exercido pelo Plasmodium falciparum. No
período Medieval, entre os séculos 1 e 15, o gene
da Hb S atingiu o leste e sudeste da Europa. Por fim, a introdução
do gene da Hb S nas Américas, e especificamente no Brasil,
se deu entre os séculos 16 e 19, motivado pelo tráfico
de escravos africanos. A tabela 6.4 resume a evolução
cronológica da dispersão do gene da Hb S.
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Tabela
6.4 – Evolução cronológica da
mutação do gene para Hb S |
Período |
Ano |
Evento |
Paleolítico/Mesolítico |
50 mil – 100 mil anos |
Ocorrência da mutação do gene
bA para bS
em três regiões da África. |
Pré-Neolítico |
10 mil – 2 mil anos a.C. |
Crescimento populacional no Saara com marcante
miscigenação entre os povos. |
Neolítico |
3 mil – 500 anos a.C. |
O aumento da transmissão da malária
acompanha a revolução agrícola e exerce
possível pressão seletiva para o gene bS. |
Neolítico Posterior |
2 mil – 500 anos a.C. |
A desertificação do Saara promove
intensa migração populacional para todas as direções
e, consequentemente ocorre a dispersão de gene bS. |
Medieval |
700 anos d.C. século XV |
Dispersão do gene bS
para o sudeste e leste europeu. |
Moderno |
Séculos XV – XVIII |
Dispersão do gene bS
pelo tráfico de escravos africanos para as Américas
e Caribe. |
Contemporâneo |
Século XIX |
Fase final do tráfico de escravos africanos
(1850) e início da imigração européia
para o Brasil. Tem início o processo de expressiva miscigenação
da população brasileira. |
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Mitos sobre a doença falciforme na Àfrica
Uma das histórias mais conhecidas relacionando
a evolução humana e a anemia falciforme se refere
à palavra ogbange muito difundida na África
e que indica reencarnação de um processo maligno (entenda-se,
no caso, como a anemia falciforme). Assim, referia-se a uma criança
doente, com as características típicas da anemia falciforme:
icterícia, fraqueza, dores articulares, inchaços das
mãos e pés, úlceras de pernas, etc., como criança-obgange.
Esse fato era tido como um espírito que atormentava crianças
de determinadas famílias – fato que relacionava-se
com a hereditariedade da doença.
De acordo com Konotey-Ahulu, de Gana, médico
que estudou profundamente o comportamento de doentes com anemia
falciforme, a doença já era conhecida por várias
gerações de pessoas da região ocidental da
África, onde a anemia falciforme recebia nomes com significados
relacionados à dor, icterícia, inchaços das
mãos e pés, etc. (tabela 6.5). |
Tabela
6.5 – Lista de palavras africanas para se referir às
características da doença falciforme (dor, úlceras,
inchaços, etc.) em diferentes dialetos. |
Palavras de referência
à DF (1) |
Dialeto |
Chwe-Chwe-Chwe (2) |
Ga |
Nwii-Nwii (2) |
Fante |
Amosani (3) |
Hausa |
Aju-oyi (4) |
Ibo, Item |
Nui-Dudui (2) |
Ewe |
(1) DF: Doença falciforme;
(2) Imitação do choro de criança provocado
por dor;
(3) inchaços;
(4) dor aguda.
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Os estudos realizados em vários grupos
étnicos de Gana revelaram que a anemia falciforme já
era conhecida, com certeza desde o século 15, com particularidades
que se caracterizavam por: crises agudas de dor nos ossos e nas
articulações, e tendência familiar. Pelo fato
dos pais serem aparentemente normais, difundiu-se o conceito do
espírito do mal que reencarnava somente em crianças.
Em outras regiões da África não foi possível
estabelecer as características típicas da anemia falciforme
quanto ao evidenciado entre as populações de Gana.
Na Nigéria, maior nação africana, a anemia
falciforme permaneceu desconhecida como doença de especificidades
típicas até meados do século passado. Embora
os vários dialetos nigerianos sejam ricos em palavras e expressões
que descrevem vários dos sintomas comumente encontrados na
anemia falciforme, esses termos não são, entretanto,
específicos dessa patologia. No dialeto Haussa as expressões
como rashin jini (falta de sangue), ciwon
gá bó bí sai sai (dores nos ossos
e articulações) e rashin kuzari (falta
de energia), são freqüentemente usadas em relação
à anemia falciforme pelos doentes, seus parentes e curandeiros
tradicionais. Entretanto, o uso corrente destas expressões
nunca foi associado à uma doença específica
como a anemia falciforme. Esse drama humano, baseado no sofrimento
impingido por um "castigo" devido à reencarnação
de um espírito mau que marca certas famílias, permanece
ainda como um mito em várias tribos africanas. |
A introdução da Hb S no Brasil
Para descrever sobre a introdução
da Hb S no Brasil é fundamental conhecer as bases que deram
origem à nossa população. A população
brasileira se caracteriza, em geral, pela sua grande heterogeneidade
genética, derivada da contribuição que lhes
deram os seus grupos raciais formadores, de si também já
muito diversificados, e dos diferentes graus com que eles se intercruzaram
nas várias regiões do país. O processo de miscigenação
pode ser analisado sob o ponto de vista da distribuição
geográfica. Os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro e
a região litorânea do nordeste apresentam, de forma
mais intensa a miscigenação branco–negra. O
Estado da Bahia, por sua vez, e em especial a região metropolitana
de Salvador, se destaca pela predominância da população
negra. Já o interior do nordeste e o extremo norte (Amazonas,
Pará e parte do Maranhão) se destacam principalmente
pelo processo de mestiçagem branco–indígena,
fato que ainda também pode ser notado nos Estados de Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Na região sul
do Brasil, e do Estado de São Paulo, há visível
predominância de indivíduos da cor branca, motivados
pelas diferentes correntes imigratórias de europeus, principalmente.
Por se tratar da introdução da Hb
S no Brasil, será dado destaque à entrada do negro
africano no Brasil, subjugado na condição de escravo
no período entre 1550 e 1850. A procedência da quase
totalidade dos escravos africanos era de duas regiões: a
Costa da Mina, que incluía o lugar conhecido
na época por Cabo do Monte até o de Lobo Gonçalves,
tendo em Ajudá o seu ponto principal de embarque para os
"navios negreiros" – e Angola estendendo-se
até o Cabo Negro, com seus três portos: Congo, Luanda
e Benguela. De Luanda e Benguela provieram cerca de 2/3 dos escravos
entrados entre 1700 e 1850 pelos portos do Rio de Janeiro e Pernambuco.
O terço restante, recebido sobretudo pelo porto da Bahia,
provinha da costa da Mina. Os negros de outras regiões africanas,
como Cachéu, Cabo Verde, Moçambique e Madagascar tiveram
pouca contribuição na presença do negro no
Brasil. A figura 6.12 mostra as regiões da África
e os graus de intensidades de onde provieram os negros para o Brasil. |

Figura 6.12 – Regiões da África,
adaptadas à presente disposição geográfica,
de onde provieram os negros para o Brasil, representado, também,
os graus de intensidade das correntes imigratórias.
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Os negros, aqui introduzidos, eram povos de várias
culturas, entretanto foram duas, a sudanesa e o
bantú, que mais contribuíram na formação
cultural do povo brasileiro. Os de origem sudanesa, caracterizados
pela influência árabe, sobressaíram na agricultura,
criação de gado, comércio, trabalhos de arte
em ferro e bronze, e eram maometanos. Os de origem bantú
tinham aptidões para serem obreiros de ferro e madeira, e
eram feiticistas. Houve também um grupo numeroso, de cultura
mista, proveniente da mistura de sudaneses e bantú –
os guineanos. Vinham do golfo da Guiné,
uma região entre o Sudão Ocidental e o Congo e de
onde saía a cultura bantú; tinham os seguintes traços:
atividades pastoril, organização social, e influência
do islamismo.
Os bantús foram sempre os preferidos no
Brasil, por serem menos independentes, mais sujeitos à escravidão,
mais reservados, loquazes e adaptáveis a diversas situações;
aceitaram o cristianismo e as formas sociais que lhes foram impostas.
O elemento mais característico do bantú foi o angolano.
Mais altos que os outros negros, porém mais fracos, eram,
no entanto, comunicativos e cordiais. Os mais inconformados eram
os daomeanos (ou jejes), os nagôs e os maometanos (ou malês),
provindos do norte da Nigéria. Os haussas, também
nigerianos, foram os mais insubmissos como escravos, e encabeçaram
todas as revoltas importantes da Bahia e de outras regiões.
A ausência de dados oficiais comprobatórios
sobre o volume de negros que aportaram no Brasil – motivada
pela circular do Ministério da Fazenda, n.º 29, de 13
de maio de 1881, que ordenava a queima dos arquivos da escravidão
– tem prejudicado sensivelmente estudos mais detalhados desse
importante tema. Entretanto, Nina Rodrigues apresenta em sua memória
"Os Africanos no Brasil" publicada em 1932, dados obtidos
do primeiro jornal publicado na Bahia – "Idade de Ouro"
– sobre o exato movimento comercial de escravos do porto de
Salvador; nesse jornal figuram os números e nomes das embarcações
entradas, a sua procedência e carga, e neste item se especifica
sempre o número de escravos importados da África,
mencionando até os que haviam sucumbido na travessia do Atlântico.
Embora abranja poucos anos (1812 a 1820), o movimento de navios
e escravos entrados no Brasil, segundo a procedência, era
o seguinte:
Local |
Navios |
Escravos |
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África setentrional: Mina, Ajudá,
Bissao, Orim, Camarões. Todos de origem sudanesa.
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68 |
17.691 |
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África meridional: Congo, Zaire,
Cabinda, Angola, Moçambique, Malambo, Quillemané,
Zanzibar. Todos de origem bantú.
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69 |
20.841 |
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Apesar
do número apresentado de bantús ser superior ao de
sudaneses, a verdade é o inverso, isto porque a partir de
1816 os ingleses iniciaram o combate à escravidão,
que somados ao tratado de Paris (1817) e de Aix-la-Chapelle (1818),
limitaram o comércio de escravos pelos portugueses. É
em obediência a esses tratados que, de 1816 em diante, desapareceram
os documentos oficiais sobre a procedência de escravos das
regiões acima da linha do Equador, sem que, todavia, tivesse
cessado sua importação. Assim, a importação
clandestina de negros continuou, depois de 1817, tão vigorosa
quanto antes.
A quantidade de negros trazidos ao Brasil é
bastante discutível, entretanto calcula-se que entre 1550
e 1850 entraram no Brasil entre 2.500.000 a 4.000.000 de indivíduos.
Dessa forma, a Hb S introduzida no Brasil por negros africanos pertencentes
a dois grupos culturais, o sudanes e o bantú, coincide com
os resultados das análises de haplótipos que revelaram
que o haplótipo Bantú é o mais prevalente em
análises efetuadas em diferentes populações
negras do Brasil, seguido do haplótipo Benin (que representa
a cultura sudanesa) enquanto que o haplótipo Senegal é
raríssimo. A figura 6.10 apresentada anteriormente, representa
as três áreas da África onde ocorreram as mutações
que deram origem à Hb S, e a figura 6.12, também apresentada
anteriormente, indica as regiões de onde provieram os negros
para o Brasil. A análise das duas figuras atestam a coincidência
da suposição histórica da proveniência
dos negros africanos para o Brasil, fato recentemente comprovado
por biologia molecular dos haplótipos da Hb S. |
Dispersão da Hb S no estado de São Paulo
Raros grupos sociais no mundo
podem afirmar terem suas raízes tão bem conhecidas
quanto o paulista. A origem dos antepassados da população
do estado de São Paulo é bem conhecida, a ponto de
ser possível fazer a sua reconstituição com
precisão. O planalto paulista – local onde se deu início
a formação da população – era
quase um vazio demográfico até a metade do século
16, onde o indígena não deixou marcas expressivas.
A formação racial do estado de São Paulo teve
início através de duas fundações: Santo
André da Borda do Campo, constituída por povoação
iniciada por João Ramalho, e a fundação jesuítica
que se estabeleceu em 25 de janeiro de 1554 numa colina entre os
vales do Anhangabaú e do Tamanduateí. Santo André
representava um tipo populacional mameluco, enquanto que a fundação
jesuítica tinha o predomínio de portugueses.
Pela própria localização
da cidade de São Paulo, estabeleceu-se um processo seletivo,
pois o planalto paulista não oferecia possibilidades agrícolas
comparáveis às da cana de açúcar do
norte do Brasil, além do que o viajante precisava enfrentar
a escalada difícil da serra do Mar. Um outro processo seletivo
era a própria sobrevivência no planalto, ante os ataques
dos índios, a fome, as doenças, e a temperatura muito
baixa. Esses determinantes fizeram com que nesse meado do século
16 o estado de São Paulo permanecesse na pobreza, enquanto
que o litoral do nordeste prosperasse devido ao comércio
do pau-brasil, ao mesmo tempo em que se formavam pequenos núcleos
populacionais. A aclimatação da cana de açúcar
no nordeste brasileiro, principalmente na orla pernambucana, retardou
o povoamento e a evolução da região sul do
Brasil. A capitania de São Vicente, a mais próspera
do estado de São Paulo, estagnara-se, e seus povoadores promoviam
o apresamento do índio para o cultivo das lavouras, enquanto
que o progresso propiciado pela cultura da cana de açúcar
no nordeste brasileiro incentivaram o tráfico de africanos.
A situação começou a mudar no final do século
16 quando os bandeirantes paulistas encontraram ouro além
da serra da Mantiqueira. Por esse motivo, volumoso contingente populacional
se dirigiu para Minas Gerais, e a prosperidade exigiu a mão-de-obra
do escravo africano, mudando o fluxo no sentido nordeste para o
sudeste do Brasil. Por quase duzentos anos o ouro foi explorado
até se exaurir, causando a diminuição do progresso
que duraria meio século. No início do século
19, um projeto organizado de plantação de café
no estado de São Paulo revelou-se como grande propulsor de
progresso social e cultural, deslocando o eixo econômico para
São Paulo. Os primeiros cafezais foram plantados no vale
do rio Paraíba, dando à região sete décadas
de prosperidade. Nesse período foi requisitado grande contingente
de escravos africanos, a ponto de representarem mais de 50% da população.
Esse fato pode ser atestado no estudo realizado entre os anos de
1978 e 1982 por Naoum que mapeou as hemoglobinopatias no estado
de São Paulo e relacionou a prevalência da Hb S com
a presença do negro africano em suas diversas regiões.
O estudo revelou que havia uma relação entre o aumento
da prevalência da Hb S com o caminho trilhado pelo negro africano
durante o ciclo do café. A figura 6.13 mostra o mapa do estado
de São Paulo e as dezenove cidades estudadas, identificando
a prevalência de Hb S em cada uma delas em amostras de sangue
obtidas de pessoas negras. Pela análise da figura é
possível observar que a efetiva introdução
do negro no estado de São Paulo se deu inicialmente pelas
cidades do vale do Paraíba. Quando as terras do vale tornaram-se
inférteis para a plantação de café,
o direcionamento cafeeiro tomou o sentido da extinta região
Central, composta por Campinas e Jundiaí, e da cidade de
Sorocaba já no final do século 19. Com a abolição
dos escravos e a vinda de imigrantes italianos para as fazendas
paulistas, a utilização da mão-de-obra de negros
caiu rapidamente, coincidindo com o início da cafeicultura
na região Mogiana e no oeste paulista, notadamente em Ribeirão
Preto, Franca, Araraquara e Jaboticabal. Pela análise do
mapa de prevalência de Hb S no estado de São Paulo
é possível observar o declínio geográfico
da Hb S no sentido oeste e norte, devido à diminuição
da mão-de-obra escrava que foi substituída pelos imigrantes
italianos e espanhóis, principalmente. Esse fato associado
com a abolição da escravidão no Brasil promoveu
o branqueamento da população paulista. Em 1872, os
negros e mulatos constituíam 62% da população
paulista. Com a abolição dos escravos em 1880 iniciou-se
o declínio dos negros; em 1923 eram apenas 16%, em 1940 eram
14%, e em 1950 somente 11%. Entretanto, o gene da Hb S foi difundido
entre os brancos que tiveram ancestrais negros, conforme mostra
a figura 6.14 que relaciona a prevalência de Hb S entre as
pessoas brancas nas mesmas cidades em que foram analisadas as pessoas
negras. Observa-se que entre pessoas brancas o gene da Hb S está
presente em todas as cidades estudadas.
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Figura 6.13 - Disposição geográfica
das cidades estudadas do Estado de São Paulo referente à
amostragem da população negra submetida à análise
de hemoglobinas. A cor preta dentro dos círculos representa
a proporção de portadores de Hb AS em relação
às outras hemoglobinas variantes e talassemias. Observa-se
que a maior prevalência da Hb AS obedece "um caminho"
que tem relação com a colonização do Estado
de São Paulo e a utilização da mão-de-obra
do escravo africano, a partir da região do vale do Paraíba
em direção à antiga região central composta
por Campinas, Jundiaí e Sorocaba. |
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Figura 6.14 - Disposição geográfica
das cidades estudadas do Estado de São Paulo referente à
amostragem da população branca submetida à análise
de hemoglobinas. A cor preta dentro dos círculos representa
a proporção de portadores de Hb AS em relação
às outras hemoglobinas variantes e talassemias. Observa-se
que em todas as cidades do Estado de São Paulo o gene para
Hb AS está presente em suas populações, indicando
a miscigenação branco-negra, com maior ou menor intensidade
entre as diferentes cidades. |
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