Autor: Paulo Cesar Naoum |
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Cerca
de 280 a 320 milhões de moléculas de hemoglobina ocupam
o espaço intracelular de cada eritrócito. Essa ocupação
corpuscular de moléculas é avaliada quantitativamente
no eritrograma sob a designação de Hemoglobina
Corpuscular Média (ou HCM) cujos
valores padrões normais variam entre 28 a 32 pg. Assim, essas
milhões de moléculas de hemoglobinas desempenham atividades
fisiológicas durante todo o ciclo de vida do eritrócito,
em média de 120 dias. Essa fisiologia, entretanto, não
só depende da hemoglobina e inclui ações de
enzimas que participam do metabolismo eritrocitário e da
manutenção da integridade físico-química
da dupla camada lipo-proteica da membrana do eritrócito,
conforme mostra a figura 4.5.
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Figura 4.5 – Interação da fisiologia
da hemoglobina com o metabolismo enzimático e a integridade
da membrana eritrocitária. |
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Essa complexa inter-relação das
moléculas de hemoglobinas, notadamente a Hb A, com enzimas
das vias do metabolismo eritrocitário (metaemoglobina redutase,
Embden-Meyerhof e Fosfoglutamato) mantém a integridade eritrocitária
visualizada na figura 4.6. |

Figura 4.6 – Eritrócito normal.
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À medida que o eritrócito se torna
envelhecido, o desempenho fisiológico da hemoglobina que
se caracteriza principalmente da transformação do
seu estado oxigenado para a forma oxidada, com liberação
do oxigênio aos tecidos, consome enzimas que equilibram esse
mecanismo e em especial a metaemoglobina redutase conforme esquema
abaixo:
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Diariamente
cerca de 1% de hemoglobina total circulante (oxiemoglobina) se converte
espontaneamente em hemoglobina oxidada e que é conhecida
por metaemoglobina. Com o passar dos dias, e próximo ao 120º
dia de vida eritrocitária, a enzima metaemoglobina
redutase se consome gradualmente e como conseqüência
há formação excessiva de metaemoglobina intraeritrocitária. |
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Esse
desequilíbrio em favor da formação de metaemoglobina
indica o início da degradação da hemoglobina
que trará graves conseqüências no processo interativo
entre moléculas de hemoglobinas, enzimas, proteínas
e lipídeos da membrana do eritrócito que foi mostrado
na figura 4.5.
A metaemoglobina é instável, não
fixa as moléculas de oxigênio (O2) difundidas no líquido
celular do eritrócito e, por essa razão, a metaemoglobina
começa a se degradar, conforme o esquema abaixo: |
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O resultado desse processo fisiopatológico
se destaca inicialmente pela deformação do eritrócito,
com perda da sua biconcavidade, de alterações morfo-fisiológicas
da membrana, inclusive com projeções causadas pelo
acúmulo de corpos de Heinz (figura 4.7).
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Figura 4.7 – Eritrócito deformado,
com alterações morfológicas e fisiológicas
da membrana causadas por precipitações de corpos de
Heinz. |
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As precipitações de globinas alfa
e beta livres junto à membrana do eritrócito são
cumulativas e formam agregados conhecidos por corpos de Heinz. A
interação entre os corpos de Heinz com a dupla camada
lipoprotéica da membrana altera principalmente a proteína
Banda 3 (figura 4.8a e 4.8b).
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Figura 4.8 – (a) corpos de Heinz em eritrócitos
com azul de crezil brilhante; (b) microscopia eletrônica plana
mostrando vários corpos de Heinz agregados à membrana
do eritrócito. |
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O acúmulo de corpos de Heinz junto à
membrana provoca lesões oxidativas por meio de seus aminoácidos,
especialmente a metionina e cisteína, que alteram a configuração
molecular da proteína Banda-3 com exposição
parcial de sua estrutura. Essa exposição da proteína
Banda-3 modifica a membrana e, por isso, atrai a ação
de macrófagos durante a passagem do eritrócito pelos
microcapilares do sistema reticuloendotelial (SRE) do baço,
fígado e medula. A ação do macrófago
contra o eritrócito deformado pode ser saneadora (fagocitose
total) ou parcial (figura 4.9).
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Figura 4.9 – Ação de um
macrófago contra um eritrócito deformado pela presença
de corpos de Heinz. Microscopia eletrônica de varredura.
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A ação saneadora é a fagocitose
do eritrócito inteiro, retirando-o da circulação.
A ação parcial, por sua vez, decorre da retirada da(s)
parte(s) do eritrócito que contém os corpos de Heinz,
e o seu retorno à circulação sanguínea
com a morfologia típica da “célula mordida”
(figura 4.10).
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Figura 4.10 – “Célula mordida”
pela retirada da parte da membrana do eritrócito devido à
exposição da proteína Banda-3 causada pelo acúmulo
de corpos de Heinz. Microscopia eletrônica de varredura.
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Todo esse processo descrito até aqui como
forma natural do envelhecimento do eritrócito pode, porém,
ser utilizado também para explicar situações
de metaemoglobinemia de causa patológica, hereditária
ou adquiridas. As metaemoglobinemias de origem hereditária
se devem à hemoglobinas variantes com oxidações
espontâneas, como são os casos das Hb M, ou por indução
estrutural devido à instabilidade molecular (Hb Instáveis),
ou ainda por deficiência da enzima metaemoglobina redutase.
As metaemoglobinemias de causas tóxicas são as mais
comuns e são induzidas por poluentes tóxicos (NOx,
SOx) e drogas oxidantes.
Essas situações promovem transformações
contínuas e cumulativas de oxiemoglobinas em metaemoglobina,
com geração de muitos corpos de Heinz por eritrócito
que, por sua vez, atraem a fagocitose saneadora de bilhões
de eritrócitos que resultam em processos hemolíticos
e anemia.
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